5ª Reunião da CPI da Saúde, em 19/03/2026.

por Gilson Paulino publicado 26/03/2026 13h39, última modificação 26/03/2026 14h13

CPI da Saúde em São Francisco do Guaporé: Depoimentos Revelam Manobras para Desvio de R$ 13 Milhões

A Câmara Municipal de São Francisco do Guaporé realizou, no dia 19 de março de 2026, a quinta sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar o desvio de aproximadamente R$ 13 milhões do Fundo Municipal de Saúde. A oitiva focou no servidor efetivo Adriano Ferreira de Oliveira, acusado de realizar transferências indevidas para suas próprias contas bancárias.

O "Funcionário Exemplar" e as Desculpas para a Secretária

A primeira a depor foi Maria Santina de Lima Ortiz, coordenadora de tesouraria. Ela descreveu Adriano como um "funcionário exemplar" que não levantava suspeitas entre os colegas. Santina relatou que o setor apenas cumpre ordens superiores e que presenciou, ao menos uma vez, Adriano utilizando o computador de outra servidora (Flávia).

Um ponto crucial de seu depoimento foi a revelação de que a Secretária de Saúde, Maria, frequentemente solicitava os extratos bancários, mas Adriano sempre dava desculpas, afirmando que o sistema estava fora do ar ou que enviaria os documentos posteriormente.

Falsificação de Extratos e Uso de "I Love PDF"

O depoimento mais técnico e detalhado foi o de Tatiane Pinaicobo Borges, assessora de contabilidade que trabalhava a apenas meio metro de distância de Adriano. Tatiane explicou como o desvio passava despercebido nas conciliações bancárias: Adriano utilizava a ferramenta online "I Love PDF" para editar extratos originais, alterando nomes, datas e valores para "maquiar" as contas.

De acordo com Tatiane, o esquema envolvia:

  • Transferências para 5 contas digitais: Foram identificados desvios para contas no Nubank, Mercado Pago, Banco Inter, C6 e Itaú.
  • Manipulação de limites: Adriano realizava transferências abaixo dos limites de registro (geralmente entre R$ 16 mil e R$ 19 mil) para evitar alertas imediatos, mas também chegou a cadastrar seu próprio CPF como "favorecido" para valores maiores.
  • Triangulação de recursos: Ele movia dinheiro entre as cerca de 20 contas da Caixa Econômica e 33 contas do Banco do Brasil para cobrir despesas urgentes (como o pagamento de ambulâncias) e ocultar os valores subtraídos.

Fragilidade no Controle e Uso de Chaves J

A investigação apontou uma grave fragilidade no controle das "Chaves J" (senhas de acesso bancário). Tatiane confirmou que era comum que os detentores das chaves (secretários e adjuntos) as entregassem aos servidores de confiança para operacionalizar pagamentos. Adriano também teria aproveitado momentos de ausência dos colegas, como horários de café ou almoço, para validar operações em outros computadores. Mesmo durante sua licença-paternidade, ele continuou trabalhando de forma remota, mantendo o acesso ao sistema.

Impacto na Saúde Pública e Próximos Passos

Os vereadores da comissão manifestaram profunda indignação com o impacto dos desvios nos serviços do SUS, mencionando a falta de especialistas e exames no município enquanto o recurso era drenado. O vereador Márcio Domingues destacou que Adriano "conseguiu manipular todo mundo pela humildade que tinha".

A terceira testemunha, Andressa Maforte, que está no setor há apenas dois meses, relatou que toda a equipe ficou em "choque" ao descobrir a magnitude da fraude.

A CPI continuará as investigações com novas oitivas agendadas, incluindo a convocação do gerente do Banco do Brasil para esclarecer por que as movimentações atípicas para uma conta de pessoa física não foram bloqueadas anteriormente.